Vale quanto pesa

O português José Barbosa de Sá, que viveu no século 18 no que hoje é o Estado de Mato Grosso, foi certamente um dos grandes intelectuais desse período no Brasil. Ele deixou, na forma de crônicas, algumas ideias que ainda nos podem ser úteis, como dar mais valor à produção de ferro do que à extração de ouro.


Há um eterno debate sobre a produção intelectual no Brasil Colônia. Segundo alguns historiadores, sábios locais se destacaram não somente por tratados médicos produzidos na América portuguesa, mas também pela "forte preocupação americana quanto à produção de ferro", como diz o artigo acadêmico "Quando ferro valia ouro análise das memórias mineralógicas de José Barbosa de Sá (1769)", assinado por Christian Fausto Santos e Rafael Campos.

Entre esses sábios consta o advogado Barbosa de Sá, falecido em Cuiabá em 1776. Esse sujeito, apesar de não ter uma educação acadêmica formal (era um advogado licenciado, ou seja, que não cursou uma universidade) escreveu sobre diversas coisas. Ele chegou a criar uma taxonomia mineralógica própria, com metais, minerais e pedras na obra "Diálogos Geográficos".

A forma como ele via a mineração e os minerais era pautada pela religião e pelo utilitarismo, uma filosofia liberal que se popularizou na segunda metade do século 18 e no 19. Sá acreditava que, diferentemente dos outros minérios, o enxofre fora criado para "punição de delitos" como um "instrumento da divina justiça". Utilitarista que era, não via valor em pedras como a esmeralda, ou em metais como o ouro, que, na visão dele, não tinham aplicação prática. Já o ferro, era outra coisa. Sendo assim, enquanto o ferro era "divino", o vil metal era "infernal".

Citando o trabalho acima, "devido a este utilitarismo também religioso que Sá defende o ferro enquanto mineral mais proveitoso aos usos humanos, em detrimento do ouro. Que o ouro era o minério mais desejado da Colônia americana, não resta muita dúvida; todavia Sá defendeu fortemente o contrário, numa visão quase herética para a época".

Isso porque o ferro era necessário para fabricar as ferramentas usadas na mineração, enquanto o ouro tinha somente um valor atribuído, mas não era útil em si. Segundo Barbosa de Sá, "até" os índios sabiam disso. Ele narra uma história em que os índios comparam os espanhóis a crianças que "que apanham coisas e pedrinhas para brincarem (a ânsia pelo ouro), e não fazem caso das coisas de valor (a busca do ferro)".


É interessante ver que essa visão utilitarista esteve presente até nos anos 1980 com o processo de substituição de importações, como no caso de fertilizantes, quando foram abertas minas no Brasil de potássio e fosfato, considerados estratégicos. Mesmo se sabendo que era muito mais barato comprar em países especialistas em produzir esses elementos.

Entendo que, na mineração, a visão utilitária foi substituída pela arrecadatória. Voltando à comparação entre ferro e ouro, basta ver que a alíquota básica dos royalties do ferro é de 3,5% enquanto a do é de apenas 1,5%. Enquanto o minério de ferro é um campeão de exportações, o ouro é... sinceramente, não sei. Oficialmente, a produção de ouro em 2020 foi de 107 toneladas, e foram exportadas quase 98,4 toneladas (olhando somente a NCM 71081, que é ouro para usos não monetários). Um tanto inacreditável que tenham ficado mais de 8 toneladas de ouro no país. Ou que tenham sido produzidas somente 107 toneladas.

Seguindo na comparação proposta originalmente por Barbosa de Sá, o ouro, cotado na última sexta-feira a US$ 1.787 a onça, faz com que uma tonelada de ouro valha uns US$ 63 milhões. Esse montante era suficiente para comprar, na mesma sexta-feira, 290 mil toneladas de minério de ferro, quase um VLOC cheio. Mas nem sempre foi assim.

Se na semana passada eram necessárias pouco mais de 8,2 toneladas para comprar uma onça de ouro, considerando o preço de referência do minério (FastmarketsMB), no ano passado, pelos preços médios das duas commodities, eram necessárias 16 toneladas para uma tonelada. Em 2016, eram precisas 21,6 toneladas de minério para uma mísera onça de ouro.

A relação de preço atual é similar àquela de 2010, ano que precedeu o recorde de preço do ferro, que aconteceu em fevereiro de 2011. Naquela época, a relação era de 8,4 toneladas para uma onça do metal precioso. A relação atual de preço entre ferro e ouro só é menor (e melhor) desde 2008. Em resumo, o minério recuperou valor nos últimos meses.

Minha conclusão é que neste ano ferro ganhou terreno e "vale quase tanto" quanto ouro, depois de passar uma década sendo desvalorizado depois do pico de 2011. E agora, finalmente, concordo que a estratégia de produzir a qualquer custo penalizou os produtores e beneficiou os consumidores, como disse Lourenço Gonçalves em 2015, um ano e meio depois que a bolsa de futuros Dalian (DCE) mudou para sempre a precificação do ferro e as grandes mineradoras passaram a competir no campo da escala de produção e não pararam mais.

A vantagem do ferro está no que Barbosa de Sá falou, é útil. Sem ferro, não há construção, nem produção de outros bens. Já o mercado de ouro teme, por exemplo, o avanço das criptomoedas que, segundo analistas, está atraindo cada vez mais investidores. Enquanto o ouro tem US$ 11,4 trilhões em ativos (capitalização de mercado), as criptomoedas ultrapassaram, na semana passada, US$ 1,53 trilhão e encurtaram a distância. Se vivo estivesse, Barbosa diria que tanto o ouro quanto as criptomoedas são infernais, e não estaria muito longe da verdade.


Fonte: Notícias de Mineração do Brasil

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