PDAC 2026: Tensões geopolíticas e riscos ambientais: os desafios da mineração
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Toronto voltou a ser, mais uma vez, o centro das atenções da mineração global. A abertura da edição de 2026 da PDAC – Prospectors & Developers Association of Canada, considerada a maior convenção mundial de mineração e exploração mineral, trouxe um tom que reflete o momento atual do setor: a mineração deixou de ser apenas um motor econômico e passou a ocupar uma posição estratégica na geopolítica, na segurança energética e no desenvolvimento tecnológico.
Ao reunir executivos, investidores, representantes de governos, pesquisadores e lideranças indígenas, o evento teve início destacando um tema cada vez mais presente no debate global: a necessidade de conciliar desenvolvimento mineral com responsabilidade ambiental, diálogo social e segurança das cadeias de suprimento.
O discurso de abertura trouxe uma reflexão forte sobre o papel da indústria em um cenário marcado por tensões geopolíticas e desafios ambientais. A mensagem central foi clara: a mineração precisa avançar com responsabilidade, visão de longo prazo e cooperação entre governos, empresas e comunidades.
O evento começou com um contraste marcante. De um lado, o respeito ancestral trazido por Ed Sackaney, Knowledge and Wisdom Keeper, que relembrou a necessidade de "pensar em décadas e não apenas em lucros imediatos". De outro, a urgência pragmática do governo canadense e das grandes corporações em garantir o fornecimento de minerais que sustentam desde smartphones até sistemas de defesa avançados.
Para o setor minerário, a mensagem de Sackaney sobre a reconciliação indígena e o diálogo constante não é apenas ética, mas estratégica. "Precisamos transformar desacordos em acordos que beneficiem o mundo todo", afirmou ele, ressaltando que o desenvolvimento de recursos deve caminhar lado a lado com a proteção ambiental e o respeito aos tratados.
Outro ponto central foi o papel dos minerais críticos na economia global. Representando o governo canadense, Claude Guay, Secretário Parlamentar do Ministério de Energia e Recursos Naturais, enfatizou que esses recursos são essenciais para tecnologias estratégicas, como baterias, veículos elétricos, semicondutores, sistemas de defesa e infraestrutura de energia renovável. Em um cenário de crescente competição entre países, garantir cadeias de suprimento seguras e confiáveis tornou-se prioridade para diversas nações.
Nesse sentido, o Canadá busca consolidar sua posição como um fornecedor estratégico de minerais críticos – “com a aprovação do orçamento 2025, o Canadá não está apenas se preparando, mas moldando a nova era global”, disse Claude Guay. O país possui dezenas de projetos avançados em minerais como cobre, lítio, grafite e terras raras, e vem estruturando políticas públicas e instrumentos financeiros para acelerar investimentos e fortalecer toda a cadeia produtiva – da exploração ao processamento.
Três pilares chamaram a atenção para os investidores presentes: Segurança Jurídica e Fiscal - a expansão do incentivo fiscal para exploração mineral (METC) agora abrange 12 novos minerais críticos essenciais para semicondutores e tecnologias limpas; Infraestrutura de Acesso - o fundo "First and Last Mile" foi desenhado especificamente para conectar projetos remotos aos centros de processamento e parceiros comerciais; e o Fomento ao Capital - o novo Fundo Soberano de Minerais Críticos surge para mobilizar capital privado em projetos que o governo considera de segurança nacional.
Jeff Killen, diretor de Polítcas e Programas da PDAC, apresentou o papel do mercado de capitais no financiamento da exploração mineral. Dados projetados por ele mostram que as bolsas canadenses continuam sendo as principais fontes de financiamento para projetos de exploração no mundo. Para ele, Instrumentos fiscais específicos, como os mecanismos de incentivo à exploração mineral, têm sido fundamentais para manter o fluxo de investimentos no setor. Killen também apresentou o primeiro mapa abrangente de uso da terra, revelando que mais de 25% do território do Canadá — uma área equivalente à Europa Ocidental — já possui restrições severas ou totais de acesso para exploração.
O recado para o Brasil é direto: a eficiência em integrar dados geocientíficos públicos no planejamento territorial é o que impedirá o fechamento acidental de áreas de alto potencial mineral.
Mesmo diante de um cenário global de incertezas geopolíticas e escassez de capital para setores fora das commodities, o clima é de um "otimismo pragmático". Como bem lembrou Stuart MCCracken, VP de Exploração da Teck Resources, "o mundo nunca dependeu tanto dos produtos da mineração como hoje".
Mas os desafios continuam e um deles é o acesso a novas áreas para exploração. Regulamentações ambientais e restrições de uso da terra, embora essenciais para a conservação, podem reduzir significativamente as áreas disponíveis para atividades minerais. É preciso encontrar um equilíbrio entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico.
Para a indústria, o momento é visto como uma grande oportunidade. A crescente demanda por minerais críticos, impulsionada pela transição energética e pela digitalização da economia, coloca a mineração no centro das transformações globais. Ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade do setor em demonstrar que é capaz de operar com transparência, inovação e compromisso socioambiental.
A abertura da PDAC 2026 também destacou a importância de atrair novas gerações para a indústria mineral. Programas voltados a estudantes e jovens profissionais fazem parte da agenda da convenção, reforçando a necessidade de formar talentos capazes de conduzir o setor em um cenário cada vez mais tecnológico e complexo.
Ao final da cerimônia, a mensagem predominante foi de que em um mundo que busca soluções para desafios energéticos, climáticos e tecnológicos, a mineração aparece como parte fundamental da resposta. Mais do que nunca, o setor está chamado a construir pontes – entre inovação e sustentabilidade, entre desenvolvimento econômico e responsabilidade social. E, se depender do clima que marcou a abertura da PDAC 2026, a indústria mineral está disposta a assumir esse papel. (Mara Fornari)
Fonte: Brasil Mineral

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