Ouro: produção robusta, novos investimentos e a busca pela longevidade das minas
Com mercado favorável, AngloGold Ashanti, Kinross e Jaguar Mining apostam em exploração, modernização e ampliação de reservas para sustentar a produção aurífera mineira nas próximas décadas.

O ouro voltou a ocupar posição de destaque na mineração brasileira nos últimos anos, impulsionado por preços internacionais em patamares historicamente elevados e pela crescente busca global por ativos considerados seguros em períodos de incerteza econômica. Nesse cenário, Minas Gerais reafirma sua condição de principal polo produtor do país, concentrando algumas das mais importantes operações auríferas da América Latina e projetos que vêm redefinindo o futuro da atividade mineral no Estado.
Mais do que manter elevados níveis de produção, as principais empresas do setor estão direcionando seus esforços para um desafio comum: ampliar a vida útil de suas minas e transformar recursos minerais em reservas capazes de sustentar novas décadas de operação. O movimento tem levado à intensificação das campanhas de exploração, à modernização de plantas de beneficiamento, ao aprofundamento de operações subterrâneas e à adoção de tecnologias voltadas para ganhos de produtividade e eficiência.
Em diferentes regiões do território mineiro, grandes produtores avançam em estratégias complementares. Enquanto a Kinross colhe os resultados de investimentos realizados em Paracatu e consolida uma das maiores minas de ouro a céu aberto do mundo, a AngloGold Ashanti aposta na expansão do potencial do Complexo Cuiabá, onde as pesquisas geológicas indicam a continuidade da mineralização em profundidades cada vez maiores. Ao mesmo tempo, a Jaguar Mining busca transformar descobertas recentes no Quadrilátero Ferrífero em uma nova fronteira de crescimento, apoiada pela retomada de operações importantes e por um ambicioso programa de exploração.
Os investimentos realizados ao longo de 2025 demonstram que o setor atravessa uma fase de fortalecimento operacional e preparação para o futuro. Segurança de estruturas, descarbonização, inovação tecnológica, ampliação de infraestrutura e pesquisa mineral passaram a ocupar posição central nas estratégias corporativas, refletindo uma visão de longo prazo que vai além dos resultados imediatos proporcionados pelo atual ciclo de valorização do metal.
A combinação entre operações maduras, conhecimento geológico acumulado e novos programas de exploração coloca Minas Gerais em uma posição privilegiada dentro da indústria global do ouro. Mais do que responder ao momento favorável do mercado, as mineradoras atuantes no Estado procuram construir as bases para um novo ciclo de crescimento, capaz de garantir competitividade, geração de riqueza e continuidade da produção em uma das províncias minerais mais importantes do mundo.
AngloGold Ashanti
De acordo com a edição especial "As Maiores Empresas do Setor Mineral", publicada em agosto de 2026 pela revista Brasil Mineral, a AngloGold Ashanti ocupa a segunda colocação como maior produtora de ouro no Brasil e em Minas Gerais, respectivamente. No exercício passado, a companhia produziu 326 mil onças de ouro, consolidando assim sua posição estratégica dentro do grupo e gerando resultados financeiros recordes.
Nos últimos dois anos foram investidos aproximadamente R$ 2 bilhões no Brasil, direcionados à modernização das operações, inovação, descarbonização, segurança de estruturas e melhoria contínua de performance. Um dos destaques em 2025 foi a conclusão da descaracterização da Barragem CDS II em Santa Bárbara (MG), que representou um investimento de aproximadamente R$ 253 milhões.
O Complexo Cuiabá permanece como o coração das operações brasileiras, compre- endendo as minas subterrâneas de Cuiabá (Sabará) e Lamego (Sabará/Caeté), com toda a produção convergindo para a planta metalúrgica do Queiroz em Nova Lima. Atualmente, Cuiabá detém o título de maior mina subterrânea do Brasil e é o ponto de mineração mais profundo do território brasileiro, com galerias que chegam a 1.600 metros abaixo da superfície. Sondagens geológicas recentes confirmaram a presença de ouro em profundidades superiores a 2.400 metros, abrindo caminho para futuros investimentos em infraestrutura e extensão da vida útil da mina.

No final de 2025, a Operação Serra Grande, em Crixás (GO), foi adquirida pela Aura Minerals, por US$ 76 milhões mais royalties de 3% sobre os retornos líquidos de fundição. Em 2024, a operação produziu 80 mil onças de ouro.
Os avanços da AngloGold Ashanti incluíram compromissos com o desenvolvimento sustentável, a segurança operacional, a valorização da memória histórica, o diálogo com as comunidades e práticas responsáveis reconhecidas internacionalmente. Dentro desse contexto, um dos principais marcos de 2025 foi a criação do Instituto AngloGold Ashanti, consolidando e ampliando a atuação social da empresa no país. Com foco em cultura, meio ambiente, desenvolvimento social, inclusão e diversificação econômica, o Instituto estruturou uma atuação de longo prazo voltada ao bem-estar das comunidades. Somente em 2025, mais de 40 projetos e iniciativas sociais foram apoiados, com investimentos superiores a R$ 13 milhões, montante que, somado aos últimos cinco anos, alcança cerca de R$ 50 milhões destinados ao desenvolvimento comunitário.
Também em 2025, o plano de fechamento das minas Velha e Grande, que integram o projeto Nova Vila, recebeu aprovação da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), após anuência da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) em 2024. Paralelamente, o projeto manteve ativa a escuta e o diálogo com a população de Nova Lima (MG), por meio de visitas guiadas, audiência pública e ações de transparência. Desenvolvido em parceria com a Prefeitura de Nova Lima e a Construtora Concreto, o Nova Vila propõe transformar a área das antigas minas em um polo cultural, esportivo, econômico e comunitário, preservando a história e criando oportunidades para a cidade.
Depois de um ano marcado por desafios operacionais, a Jaguar Mining entrou em 2026 focada em recuperar volumes de produção e preparar uma nova etapa de crescimento de suas operações em Minas Gerais. A trajetória da companhia em 2025 foi diretamente impactada pela paralisação temporária das atividades no Complexo Turmalina (MTL), após o incidente registrado na instalação de armazenamento a seco de Satinoco no final de 2024, o que reduziu significativamente a produção consolidada de ouro ao longo do ano.

Sem a contribuição regular de Turmalina, a operação da mina Pilar tornou-se a principal fonte de produção da empresa. Em 2025, Pilar produziu 40.012 onças de ouro, enquanto Turmalina respondeu por apenas 242 onças, provenientes de testes metalúrgicos realizados com minério do corpo Faina. Como resultado, a produção anual consolidada atingiu 40.254 onças.
Além da interrupção das atividades em Turmalina, a companhia também executou intervenções de infraestrutura na mina Pilar, incluindo melhorias nos sistemas de ventilação, exaustão e resfriamento das áreas mais profundas da operação. Embora essas obras tenham limitado temporariamente o acesso a minério de maior teor, a empresa destacou que os investimentos foram necessários para aumentar a segurança, melhorar a eficiência operacional e garantir a continuidade da produção no longo prazo.
O cenário começou a mudar no início de 2026. Em janeiro, a Agência Nacional de Mineração (ANM) autorizou a retomada das principais operações do Complexo MTL, permitindo o restabelecimento gradual da mineração subterrânea, do desenvolvimento de galerias e do funcionamento das instalações de processamento. A decisão representou um passo decisivo para a recuperação dos níveis planejados de produção da companhia.
A virada definitiva ocorreu em março, quando o Escritório de Emergência Ambiental (NEA) removeu o último embargo remanescente sobre o complexo, liberando o reinício das atividades de lavra e beneficiamento em Turmalina. A empresa classificou a autorização como um marco para a execução de seu plano estratégico de crescimento, que contempla não apenas a retomada da mina Turmalina, mas também a reativação da mina Santa Isabel, no Complexo Paciência, e a continuidade da expansão da mina Pilar.
Com a retomada das operações, os primeiros resultados já começaram a aparecer. No segundo trimestre de 2026, a produção consolidada alcançou 13.057 onças de ouro, crescimento de 19% em relação ao mesmo período do ano anterior. Turmalina respondeu por 3.994 onças, equivalentes a cerca de 31% da produção total da companhia, restabelecendo uma importante fonte de geração de caixa e reforçando a estratégia de diversificação operacional da Jaguar.
Mas o principal vetor de crescimento da empresa para os próximos anos está na expansão de recursos minerais e na ampliação da vida útil de suas operações. Em 2026, a Jaguar acelerou a execução de seu Plano de Exploração de Cinco Anos, anunciado originalmente em 2025, com foco no corredor geológico Chamé-Bahú, localizado no Quadrilátero Ferrífero. O programa prevê 227,2 mil metros de sondagem ao longo de cinco anos e investimentos estimados em US$ 43 milhões.
A região é considerada estratégica por estar situada a menos de um quilômetro das galerias subterrâneas e da planta de processamento da mina Santa Isabel, o que poderá permitir o aproveitamento de infraestrutura já instalada caso novos recursos econômicos sejam confirmados. Para acelerar os trabalhos, a companhia contratou as empresas Major Drilling e GEOSOL, responsáveis pela execução de campanhas de sondagem em padrão internacional.
Os primeiros resultados do programa reforçaram o potencial geológico da área. Em julho, a Jaguar anunciou que as campanhas de perfuração identificaram um sistema mineralizado contínuo ligando os alvos Chamé, Santa Isabel, Marzagão e Bahú, formando um distrito aurífero com mais de 15 quilômetros de extensão. A descoberta amplia significativamente o potencial de crescimento da companhia dentro de áreas já controladas pela empresa no Quadrilátero Ferrífero.
Paralelamente, a empresa vem fortalecendo sua posição financeira para sustentar a expansão. No primeiro trimestre de 2026, a receita avançou 63%, beneficiada pela valorização do ouro, enquanto a geração de caixa permitiu o autofinanciamento das atividades de exploração e da retomada operacional de Turmalina. Ao final de junho, a companhia mantinha caixa de US$ 74,8 milhões, patamar considerado confortável para apoiar a execução de seus projetos estratégicos.
A combinação entre a recuperação da produção em Turmalina, o avanço dos estudos para reativação de Santa Isabel, a continuidade dos investimentos em Pilar e o agressivo programa de exploração colocam a Jaguar Mining em uma posição distinta daquela observada em 2025. Para este ano, a companhia projeta produção entre 50 mil e 60 mil onças de ouro, apoiada principalmente pelo desempenho das minas Pilar e Turmalina. Mais do que recuperar os volumes perdidos durante o período de paralisação, a estratégia da empresa busca criar as bases para um novo ciclo de crescimento sustentado, fundamentado na ampliação de reservas e no aproveitamento do potencial ainda pouco explorado de suas extensas áreas minerais em Minas Gerais.
A mina Paracatu consolidou sua posição como o principal ativo da Kinross Gold nas Américas em 2025. Em um ano marcado por preços recordes do ouro e forte geração de caixa, a operação mineira localizada no Noroeste de Minas Gerais registrou crescimento de produção, melhora de desempenho operacional e reforçou seu papel estratégico dentro do portfólio global da companhia.
Os resultados divulgados pela Kinross mostram que Paracatu foi uma das principais responsáveis pelo desempenho da empresa no ano passado. Enquanto a produção consolidada global apresentou redução planejada de 5%, a operação brasileira seguiu na direção oposta, beneficiada pelo avanço da lavra para zonas de maior teor e por ganhos de recuperação metalúrgica obtidos com investimentos realizados nos anos anteriores.
A produção de Paracatu alcançou 601.318 onças equivalentes de ouro em 2025, crescimento de 14% em relação às 528.574 onças registradas em 2024. Foi o oitavo ano consecutivo em que a mina superou a marca de 500 mil onças produzidas, um feito que reforça a relevância do empreendimento entre as maiores operações auríferas a céu aberto do mundo.

O avanço ocorreu mesmo com a redução do volume processado. De acordo com a análise operacional da companhia, a mineração continuou avançando para porções mais profundas e mais duras do depósito Morro do Ouro, o que resultou em menor taxa de processamento. Em compensação, os teores médios aumentaram 19%, pas- sando de 0,36 g/t para 0,43 g/t, enquanto a recuperação metalúrgica evoluiu de 80,2% para 82%. O resultado foi suficiente para elevar significativamente a produção anual.
Outro fator importante para o desempenho foi a entrada em operação plena da infraestrutura adicional do circuito gravimétrico instalada no segundo semestre de 2024. Segundo a companhia, os investimentos contribuíram para melhorar a recuperação do ouro contido no minério processado, ampliando a eficiência da planta.
O impacto financeiro foi expressivo. A receita gerada por Paracatu atingiu US$ 2,06 bilhões em 2025, avanço de 63% sobre o ano anterior, impulsionada pela combinação entre maior produção e valorização do metal precioso. O lucro operacional da unidade mais que dobrou em relação a 2024, refletindo tanto o ambiente favorável de mercado quanto os ganhos operacionais obtidos na mina.
No campo dos investimentos, a Kinross destinou US$ 195 milhões ao Brasil em 2025. Conforme informado pela empresa, todo o montante foi direcionado para a sustentação das operações, assegurando a continuidade da produção, a manutenção da infraestrutura e a execução do plano de lavra de longo prazo. O valor representou uma parcela relevante dos US$ 1,15 bilhão previstos pela companhia para investimentos globais no período.
De acordo com divulgações oficiais do Grupo, o aspecto mais relevante para o futuro da operação está relacionado à longevidade do ativo. Em março de 2026, a Kinross divulgou um novo relatório técnico para Paracatu confirmando que as reservas minerais atualmente conhecidas sustentam a operação pelo menos até 2034. O documento reforça a visão da companhia de que a mina permanece um ativo estratégico de longo prazo dentro do portfólio global.
A empresa também continua trabalhando para ampliar esse horizonte. O depósito Morro do Ouro mantém uma base robusta de reservas e recursos minerais, resultado de décadas de investimentos em pesquisa geológica e desenvolvimento de tecnologias para aproveitamento econômico de minérios de baixo teor. Desde o início da operação, em 1987, Paracatu já produziu mais de 12,3 milhões de onças de ouro.
Para os próximos anos, a estratégia da Kinross no Brasil está baseada na manutenção de elevados níveis de produção, na disciplina de capital e na maximização do aproveitamento do corpo mineral. A companhia projeta uma produção global próxima de 2 milhões de onças equivalentes de ouro por ano em 2026 e 2027, tendo Paracatu como uma de suas principais âncoras operacionais. A expectativa é que a mina continue se beneficiando do acesso a áreas de maior teor previstas no plano de lavra, preservando sua competitividade em custos e sua contribuição para a geração de caixa do grupo.
Em um cenário de demanda crescente por ouro como ativo de proteção e de manutenção de preços elevados no mercado internacional, Paracatu chega à segunda metade da década como uma operação madura, porém ainda com espaço para ganhos de produtividade e expansão de valor. Para a Kinross, trata-se não apenas de sua maior mina nas Américas, mas de um ativo capaz de sustentar o crescimento da companhia no longo prazo e reforçar a posição do Brasil entre os principais pólos mundiais de produção de ouro.
Fonte: Brasil Mineral

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