Nova Ordem


Quando o presidente dos Estados Unidos assinou uma ordem executiva (que seria aqui um Decreto Presidencial), resolvi dar uma lida no documento. Inicialmente pensei que americanos reclamavam dos excessos capitalistas da China, depois me ocorreu que era mais uma ação política (desesperada) por causa da proximidade das eleições nos EUA.

A tal ordem, publicada em 30 de setembro, menciona a China doze vezes. O principal argumento é que os EUA, outrora maior produtor mundial de terras-raras, importa agora 80% das terras-raras direta ou indiretamente da China. A reclamação pode ser resumida nesta frase "[...] a China usou práticas econômicas agressivas para inundar estrategicamente o mercado global de elementos de terras-raras e deslocar seus concorrentes", ou seja, tirá-los do mercado ou comprá-los depois de desvalorizá-los.

Isto é, chinês é bom de mercado e entende bem das práticas empresariais modernas, sem fazer aparentemente nada de ilegal. Se tivesse feito, os EUA poderiam chamar o Procon global, que atende pelo nome de OMC. Mas acho que não fariam isso no momento, uma vez que estão fritando ONU, OMS e outras franquias.

E o mimimi continua. "Desde que obteve essa vantagem, a China explorou sua posição [...] coagindo as indústrias que dependem desses elementos para localizar suas instalações, propriedade intelectual e tecnologia na China [...] várias empresas foram forçadas a aumentar a capacidade fabril na China depois que ela suspendeu as exportações de terras-raras para o Japão em 2010". Forçada é essa argumentação. Sempre há opção: fechar a fábrica, mudar de ramo, reclamar a OMS, investir em outros produtores em outras partes do mundo, afinal tiveram umas duas décadas para pensar nisso.

A ordem executiva também cita a barita (que deixamos de produzir em 2016, para importar da China, assim como os EUA), que tem aplicação na indústria de petróleo e gás, como a de fracking.

A longa reclamação, com mais de 2.700 palavras, continua com gálio e grafite. No caso do gálio, usado em leds, celulares, computadores e 5G, 100% do que americanos importam vem da China. Quanto ao grafite, usado em baterias, a China detém 60% de toda a produção mundial. Curiosamente, o nióbio não é citado por Donald, e olha que 67% do que os EUA consomem vêm do Brasil.


E nesse momento me ocorre a seguinte ideia, com anos de atraso: poderíamos importar uns executivos chineses para aconselhar o nosso Ministério de Minas e Energia (MME) sobre como usar melhor essa fantástica vantagem que temos com o nióbio, afinal 85% das reservas mundiais estão no Brasil. Aí você vai olhar a composição acionária da CBMM e vê que 30% é da China e de um consórcio do Japão com a Coreia.

A parte política da ordem vem no uso da palavra "empregos", afinal o propósito é criar linhas de financiamento e facilidades no licenciamento para gerar "incontáveis empregos", como disse Trump, e dar segurança ao país. Sabemos que isso é balela, pois os resultados só apareceriam dois mandatos depois, uma vez que o tempo médio para um empreendimento mineral começar a produzir é de oito anos (sendo otimista). Então a motivação está a um mês de distância, em 3 de novembro, a data da eleição presidencial.

Sem falar que é uma atitude nada republicana tentar influenciar o mercado dessa forma tão estatista. Assim, a tal "emergência nacional" citada na Ordem Executiva está mais com cara de "emergência eleitoral".

Em visita recente ao estado de Minnesota, poucos dias antes de soltar a tal ordem, Trump acenou com financiamento para equipamentos de mineração a serem usados no chamado Minnesota Iron Range, uma área rica em níquel e cobre. "A visão aqui é transformar o Iron Range no nordeste de Minnesota ... no range do cobre, do níquel, do cobalto, da platina e do paládio também", disse um assessor do candidato à reeleição.

De volta à Ordem Executiva, teremos novidades em 60 dias, prazo em que uma comissão deve apresentar sugestões de cotas e tarifas para a China e outros países adversários que ameacem os EUA.

Contudo, há uma outra possibilidade muito interessante, pois a ordem fala de "construir uma resiliente cadeia de suprimento de minerais críticos, inclusive por meio de iniciativas para ajudar os aliados a construir cadeias de suprimento confiáveis de minerais críticos em seus próprios territórios". Ou seja, gerando empregos no exterior. Bem, o Canadá e a Austrália são os maiores candidatos a essa posição, mas quem sabe o Brasil não consegue essa boquinha? Acho que podemos usar os ativos de nióbio para convencer os parceiros norte-americanos disso.


Fonte: Notícias de Mineração do Brasil

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