Cenário para Vale e CSN Mineração melhora, mas sem reprise de bom resultado de 2021


Os cortes de juros anunciados pela China na tentativa de estimular o crescimento da economia e do setor imobiliário devem beneficiar as ações de empresas brasileiras que exportam minério de ferro, como Vale (VALE3) e a CSN Mineração (CMIN3). No entanto, o mercado ainda espera que o preço da commodity fique abaixo dos níveis de 2021, o que limitaria o bom desempenho das ações destas companhias.


A China é um grande consumidor de matérias-primas, em particular de minério de ferro – insumo essencial para a produção de aço. Como o país começou a se mexer no início deste ano para evitar uma desaceleração mais intensa em seu ritmo de crescimento, os investidores inferiram que a tendência daqui para frente é o consumo de commodities aumentar, elevando os preços destes produtos e beneficiando empresas do setor.


As ações da Vale passaram de R$ 77,96 no final do ano passado para R$ 84,91 no fechamento da última sexta-feira (21), um aumento de 8,9%. Já os da CSN Mineração foram de R$ 6,74 para R$ 7,18 no mesmo período, alta de 6,5%. No mesmo período, os preços do minério de ferro na bolsa de Dalian, na China, acumularam ganho de 11,6%.


“Entendo que as pessoas irão continuar acreditando nas empresas, e elas devem se valorizar mais ao longo dos próximos meses. Boa parte das receitas delas não dependem do Brasil, mesmo que exista um ano volátil com as eleições, as companhias não são tão afetadas”, disse o estrategista da RB Investimentos, Gustavo Cruz.


Ainda assim, há outros fatores que podem limitar a influência positiva do cenário atual sobre os preços das ações de mineradoras. “A China tem anunciado várias medidas para reduzir o uso do aço, com isso, esperamos um ano positivo mais para a siderurgia do que mineração. Apesar do ciclo expansionista atual, não da pra saber até quando isso vai. Na siderurgia, vemos ações mais concretas”, disse o analista da Guide Investimentos, Rodrigo Crespi.


A economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, ressaltou que, mesmo subindo no acumulado de 2022, os preços do minério de ferro ainda estão muito distantes das máximas atingidas em 2021. Um ano atrás, por exemplo, em Dalian, a commodity era negociada a um preço 40,2% maior que o atual.


Além disso, o histórico de importação de minério de ferro pela China sugere que o volume de compras aumenta no segundo semestre. “Esse movimento sazonal por si só tende a fazer com que o montante exportado, em termos de quantidade, no primeiro trimestre de 2022 seja menor do que no quarto trimestre de 2021″, com consequente impacto negativo sobre os resultados das empresas, dada a redução de preços em relação ao ano passado.


Ela também apontou que é preciso levar em consideração o contexto econômico fora da China. Vários países estão aumentando ou pretendem elevar suas taxas de juros – caso dos Estados Unidos -, o que pode inibir a atividade econômica.


“Como a China é considerada o grande parque industrial do mundo, os Estados Unidos acabam se tornando uma massa consumidora desses produtos. Pelo fato do país americano estar entrando num aperto monetário, isso pode desincentivar o consumo”, afirmou.


Mercado estava mais pessimista

No final do ano passado, os investidores estavam mais pessimistas com o cenário para o setor de mineração, porque tanto os sinais de desaceleração na economia da China quanto o cenário de alta de juros em outros países fizeram os preços do minério de ferro cair – e com eles, o valor das ações de mineradoras.



Histórico de preço das ações da Vale desde junho de 2021. Fonte: TradeMap



Histórico de preço das ações da Usiminas desde junho de 2021. Fonte: TradeMap





A economia da China está em desaceleração por fatores estruturais – aumento no peso do consumo e dos serviços em sua matriz econômica, em detrimento da indústria e dos investimentos -, mas também sofreu impactos no ano passado de questões sazonais – problemas no fornecimento de energia, no funcionamento das empresas por causa de medidas de contenção da pandemia de Covid-19 e da crise imobiliária desencadeada quando a Evergrande, gigante do mercado imobiliário chinês, anunciou um possível calote de suas dívidas.


No final do ano, o Banco Mundial cortou as previsões de crescimento do país. A expectativa do banco é de que o PIB da China cresça 8% em 2021. Em junho, a previsão era de crescimento 8,5% para o ano completo. Este cenário fez com que, na segunda metade do ano passado, o mercado baixasse as expectativas sobre os resultados de mineradoras brasileiras que exportam produtos para o país, como a Vale e a CSN Mineração.


A XP, por exemplo, recomendou a compra das ações das duas empresas por considerar que elas estão mais baratas que outras do mesmo setor e possuem forte capacidade de geração de caixa. Ao mesmo tempo, no entanto, considera que um dos principais riscos à Vale, por exemplo, esteja relacionado à recuperação da demanda na China.


“Mesmo que a crise energética na China tenha começado a diminuir e as restrições à produção de aço também estejam sendo reduzidas gradualmente, a demanda poderá não se recuperar completamente conforme os projetos de construção chegam à conclusão e o pipeline de novos projetos diminui”, disseram os analistas Andre Vidal e Thales Carmo.


O BTG Pactual, em relatório publicado no final do ano passado, apresentou avaliação semelhante, afirmando que “as expectativas parecem muito negativas” em relação à companhia, mas que a perspectiva de retornos elevados aos acionistas e “o desconto excessivo” no preço das ações justificava o investimento nas ações.


Fora o fator China, Cruz, da RB Investimentos, apontou que no ano passado o cenário de alta nas taxas de juros prejudicou muito empresas com ações na bolsa, e para o setor de mineração não foi diferente. “O segundo semestre foi muito delicado. Teve toda a reprecificação de taxa de juros e isso pesou para mercado de ações. Foram quase seis meses de queda no Ibovespa, fazendo com que o investidor voltasse para a renda fixa, e isso provocou aquele movimento que agora está sendo revertido”, diz.


O que mudou a visão dos investidores

As circunstâncias mudaram um pouco depois que a China começou a cortar juros e a sinalizar ao mercado que pretende tomar medidas para sustentar seu ritmo de crescimento econômico. Na quinta-feira (20) o PBoC, o banco central chinês, cortou suas taxas de juros de referência (LPRs) para empréstimos de curto e de longo prazo. Os períodos são de um e cinco anos, respectivamente. Foi a primeira vez em 21 meses que as duas taxas foram reduzidas ao mesmo tempo. Além disso, no início da semana havia também reduzido a taxa de médio prazo (MLF).


A LPR de curto prazo caiu de 3,80% para 3,70%. No período de cinco anos, passou de 4,65% para 4,60%. No caso da MLF, foram reduzidos de 2,95% para 2,85%.


Armstrong Hashimoto, sócio e operador de renda variável da Venice Investimentos, vê esse movimento ajudando o Ibovespa. “O índice tem muito peso pelas commodities, então esse cenário de alta aumenta a exportação e receita, sendo favorável e positivo pras companhias”, comenta.



Fonte: trademap.com.br

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