3 anos do desastre em Brumadinho, o que aprendemos com a tragédia?




Há três anos, o rompimento abrupto da Barragem I do Complexo Minerário Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), voltava a assustar o Brasil e evidenciar a insegurança das estruturas de contenção a montante de rejeitos de mineração. A tragédia, que tirou a vida de 272 pessoas e deixou impactos ambientais, foi ocasionada pela liquefação dos rejeitos, segundo apontam os relatórios técnicos entregues ao Ministério Público Federal. Mesma causa, aliás, da ruptura da barragem da Samarco, na cidade de Mariana em 2015, conforme ressalta o professor e engenheiro geotécnico Alberto Sayão, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental do CTC/PUC-Rio, um dos responsáveis pela produção do Relatório Técnico Complementar de Revisão da Barragem I, entregue ao Ministério Público Federal em outubro de 2021.


Entretanto, como vice-presidente do Comitê Brasileiro de Barragens, Sayão diz que tem a missão de acalmar esse temor: “sem as barragens para geração de energia e abastecimento de água não conseguimos viver e, sem barragens, não existe mineração. Estamos falando de dois acidentes especificamente, mas nas últimas três décadas houve ao menos uma dezena de ocorrências concentradas em Minas Gerais, todos com a mesma causa principal: o mau funcionamento dos sistemas de drenagem, o que deixa os rejeitos saturados e as estruturas com grande acúmulo de água”.


Dentro dessa lógica, é possível questionar por que não acontecem então tantos acidentes com barragens de água e o especialista explica que, neste caso, as estruturas são um ativo para as companhias de água e energia, enquanto as barragens de rejeitos são áreas que armazenam um passivo das indústrias de mineração, “recebendo menos atenção”.


Outro aspecto salientado por Sayão é que uma barragem de rejeitos pode levar algumas décadas para ser construída, devido ao processo de alteamento, cujas etapas são feitas por consultores ou projetistas diferentes, dificultando assim um histórico de construção – “geralmente é a própria companhia mineradora que executa o alteamento”. Já as barragens de grande porte para geração de energia, abastecimento ou irrigação, são projetos de engenharia com construção mais rápida.


Mas voltando aos acidentes da Samarco e da Vale, Sayão conta que logo após o acidente de Mariana a mineradora designou uma comissão de três engenheiros estrangeiros e um brasileiro para fazer um estudo sobre as causas da ruptura da barragem de Fundão, cujas conclusões técnicas foram publicadas um ano depois. O mesmo procedimento de investigação se deu na comissão de consultores contratada para investigar as causas da ruptura de Brumadinho.


No caso de Brumadinho, buscando um parecer técnico independente, o Ministério Público Federal resolveu contratar especialistas do Centro Internacional de Métodos Numéricos en Ingenieria (CIMNE), vinculado à Universitat Politécnica de Catalunya (UPC), na Espanha, para a realização de uma avaliação computacional, e o acompanhamento desse trabalho ficou a cargo do Professor Sayão e do Prof. MSc Univ. Córdoba (Argentina), Roberto Terzariol.


Os relatórios atribuem a causa de ambos os rompimentos a um fenômeno chamado de liquefação, que indica um funcionamento inadequado dos sistemas de drenagem das barragens. “No caso de Mariana, a barragem estava em construção (em alteamento), com grande velocidade de produção de rejeitos. Já em Brumadinho, a barragem estava concluída e o reservatório de rejeitos paralisado”, diz o especialista, explicando que na barragem do Córrego do Feijão, além do acúmulo de água ocasionado pelo grande volume de chuvas, as pressões de água resultantes da instalação de piezômetros acabaram desestabilizando a estrutura e ativando o gatilho dos colapsos.


“Além da vibração, a pressão da perfuração provocou uma movimentação da massa de rejeitos e destruiu a cimentação das partículas de óxido de ferro, presentes nos rejeitos de minério de ferro e isso explica o colapso repentino”, ressalta o especialista.


Lições aprendidas

Acidentes não acontecem por uma única causa, mas conforme apontado pelo relatório de investigação, Sayão recomenda que se evite fazer furos nas barragens de rejeitos, em especial com equipamentos com pressurização de água. Também é prudente que o acionamento do sistema de alarme seja automático e não manual.


De qualquer forma, desde Brumadinho o Governo Federal proibiu a construção de barragens a montante – “ação precipitada, mas importante do ponto de vista político”, na opinião do professor, que disse compreender a necessidade da Agência Nacional de Mineração se posicionar perante a sociedade. Como vice-presidente do Comitê Brasileiro de Barragens, o especialista considera a decisão como “uma derrota para a engenharia, pois o Brasil sabe como projetar e construir barragens”. Para ele, o maior problema está no gerenciamento dessas estruturas, vistas ainda como “custo” por parte das companhias.


Para que novos acidentes não aconteçam, a ANM recomenda que as barragens paralisadas e construídas a montante sejam descaracterizadas – “o que não deixa de ser uma ação ‘delicada’, especialmente se os sistemas de drenagem de água não estiverem funcionando a contento. O processo de descaracterização deve ser feito com muito estudo e cuidado, considerando todas as alternativas de soluções técnicas”, recomenda o especialista. Esses sinais de instabilidade incluem trincas na estrutura das barragens e o mau funcionamento do sistema de drenagem, identificado pela coloração da água (tecnicamente chamado de entubamento).


As análises computacionais realizadas pelo CIMNE / UPC e as lições aprendidas após o colapso de Brumadinho serão discutidas em um evento online promovido pela Geotecnia Brasil, no próximo dia 27 de janeiro, a partir das 18h. Para acompanhar, basta acessar https://www.youtube.com/watch?v=1OZBJ_c5IBw. (Mara Fornari)



Fonte: Brasil Mineral



0 comentário