Representatividade: na mineração, mulheres conquistam seu espaço e alcançam patamares de liderança

Somente em 2021, cerca de quatro mil mulheres foram empregadas no setor de mineração


Atualmente, do total de 200 mil trabalhadores que atuam na mineração, 15% são mulheres (Tarso Sarraf / O Liberal)


Apesar de o setor de mineração ser predominantemente masculino, nos últimos anos, a representatividade feminina vem ganhando espaço nessas áreas. O crescimento é gradativo. Atualmente, do total de 200 mil trabalhadores que atuam na mineração, 15% são mulheres. A maior parte delas ocupa cargos em conselhos administrativos (16%). Há ainda aquelas que trabalham em conselhos executivos (11%). As demais estão presentes em áreas diversas. Somente em 2021, cerca de quatro mil mulheres foram empregadas no setor, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).


"Foi algo que começou muito cedo na minha vida. Meu pai sempre trabalhou na mineração; isso foi muito parte da minha vida. Então, decidi que trabalharia na mineração, mas numa área muito mais específica, na área de relações com comunidade, em serviço social. Naquela época, eu não tinha muito essa consciência do tanto que a mineração era uma área masculina". É desta maneira que Silvia Cunha, gerente de relações com comunidades da empresa Vale, relembra o começo da carreira profissional, há quase 20 anos.


Hoje, Silvia atua como porta-voz da empresa, para manter relação com a comunidade local. Faz parte da sua rotina desenvolver projetos e intervenções, principalmente para estabelecer a comunicação entre as partes. A assistente social conta que já vivenciou muitos desafios relacionados a questões de gênero.



"Hoje, na Vale, isso não acontece mais. Porém, lá atrás, eu já passei por muitas coisas. Eu sempre trabalhei com homens em sua maioria. Muitas vezes eu queria falar e não era ouvida. Às vezes, eu precisava fazer uma intervenção e eles falavam: É uma mulher que vai negociar? Não dá pra ser um homem? Até a presença da mulher nas reuniões com as comunidades é pequena. Hoje, trabalho na área externa da Vale, também com muitos homens, mas aqui todos me conhecem e me respeitam. Eu conquistei meu espaço", conclui.


O início da carreira profissional é sempre um grande desafio, principalmente quando a escolha da área de atuação impõe quebras de tabus e preconceitos. Camila Rabelo, engenheira de processos, fez sua escolha há 6 anos, quando decidiu trabalhar na Albras. Relembrando os caminhos que percorreu, ela conta que nunca sofreu preconceito por ser mulher, mas lembra de um fato curioso, no seu primeiro ano de atuação. "Um certo dia, um operador me perguntou por que eu estava ali, trabalhando em um ambiente agressivo, cheio de homens... eu senti preocupação na fala dele, não preconceito. Eu expliquei pra ele que não tinha ambiente certo pra uma mulher trabalhar. A questão era mesmo cultural”, pontua.


Camila hoje coordena o departamento de engenharia de processos. A equipe é composta em sua maioria por mulheres, mas ela também atua diretamente com mais de 70 homens diariamente, os quais estão sob a sua demanda. Na visão da engenheira, quanto mais diversa a mão de obra, maior a diversificação e eficácia do trabalho. “Acreditamos que, quanto mais plural o time, melhor. A nossa liderança enxerga essa diversidade como ponto forte, principalmente em questões relacionadas a qualidade e produção", finaliza.




Quebrando tabus

Há algumas décadas, começava a incessante busca pela ocupação feminina no espaço de trabalho. A participação da mulher como mão de obra foi quase forçada, por assim dizer. Após a revolução industrial, com o modo de produção em massa, o trabalho manual deu espaço às grandes máquinas. É nesse período que surge a grande necessidade de mão de obra, sendo essa a mais barata possível. Neste cenário, as mulheres começam a aparecer como opção para as grandes indústrias. É o marco da inserção da mulher no mercado de trabalho, o que foi considerado uma grande conquista, já que, em épocas anteriores, mulheres e crianças nem mesmo eram contados nos censos demográficos, ou tinham direito ao voto.



A conquista do espaço profissional não foi fácil. No início, as mulheres eram submetidas a péssimas condições de trabalho, sem a mínima garantia de direitos. As mulheres ainda sofriam vários preconceitos físicos, eram estereotipadas como sexo "fragil", e o social, sendo o trabalho feminino considerado inferior ao masculino, de menor valor e, consequentemente, com menores salários.


As mulheres desse século podem se considerar revolucionárias e responsáveis pelo destaque da participação feminina no mercado de trabalho, isso após protestos e revoluções. Contudo, a socióloga Maria de Fátima da Fonseca explica que o processo da evolução da sociedade continua, e que um dos principais fatores que auxiliaram as mulheres a ocupar espaços foi a capacitação e o acesso às universidades. “A sociedade vai se tornando mais ampliada, principalmente por conta da escolarização, da capacidade de entendimento de direitos. A especialização da mulher a coloca em nível de competitividade com os homens. Isso provoca uma ruptura com os deveres considerados específicos, e habilita a mulher a novos horizontes de trabalho”, explica.


A luta pela ocupação do espaço feminino do âmbito profissional persevera até os dias de hoje. Existem pontos de discussão ainda levantados, como a desigualdade salarial entre homens e mulheres, a quantidade reduzida de mulheres que ocupam os cargos mais altos das empresas, se comparada a dos homens, e ainda a participação delas em profissões ditas "masculinas" como juiz de futebol, piloto de avião, áreas industriais e de engenharias mecânicas e civil.


Setor de mineração

O Estado do Pará se destaca no cenário nacional como o maior produtor de minérios do País. Na Vale, uma das maiores empresas de mineração do Brasil, 18,7% da força de trabalho são formados por mulheres, um crescimento de 5,2% em relação a dezembro de 2019. São 4.500 mulheres a mais trabalhando na empresa.

Gerente global de diversidade e inclusão da Vale, Viviane Ajub explica que a empresa tem desenvolvido várias ações para atrair, reter e buscar garantir a inclusão de mulheres. “Em 2020, foram admitidas mais de mil mulheres para atuar em operações de todo o Brasil. Nosso objetivo é chegar a 26% de mulheres na Vale até 2025. Hoje, 20% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres; isso também deve crescer", explica.


A empresa também lançou uma websérie, "Mineração Por Elas", que mostra a presença de mulheres em áreas técnicas, operacionais e de gestão na Vale. A série, que tem as funcionárias da Vale como protagonistas, traz inspiração para que outras mulheres vejam que é possível e promissor construir uma carreira na indústria da mineração.


Destaque feminino

Se hoje trabalhar em áreas predominantemente masculinas é um desafio, há duas décadas, a realidade era ainda mais desafiadora. "Eu comecei há mais de 20 anos. A forma de pensar, de agir, era outra, mas foi se transformando ao longo do tempo de forma positiva. Isso é muito bom! Lá no começo, a gente não deixava de ter essa preocupação com o que iriam pensar de nós, mas eu sempre pensei também que eu teria que entregar o melhor. Eu sempre trabalhei com muito respeito, eu acho que vai ponderando... a forma de lidar com a situação te ajuda muito no processo”, declarou Gizélia Matos, gerente-sênior administrativa Hydro.


Lúcia Morais Lobato também carrega anos de experiência na bagagem. Hoje é supervisora de laboratório na Vale. Como engenheira química, ela conta que ao sair da faculdade não imaginava trabalhar na mineração. "Eu não avaliei que iria entrar num universo masculino. Na verdade, a ânsia de entrar no mercado de trabalho era maior. E eu consegui, aí me deparei com um cenário estritamente masculino", conta.


A engenheira diz ainda que no decorrer do tempo, em várias situações, ela precisou se posicionar para demarcar o seu espaço. Ela diz que não foi fácil, mas que a experiência lhe trouxe maturidade para lidar com as diferentes situações. "Eu me lembro de algumas brincadeiras que já fizeram por eu ser mulher. Às vezes, precisávamos sair e fazer algum trabalho externo, quando eu ia dirigir, tinham sempre aquelas brincadeirinhas... Ah! Será que a Lúcia dirige bem? Isso foi há muito tempo. Mas eu tive que me posicionar, e sempre me mantive forte. Hoje, sinto que ocupei o meu espeço! Me sinto feliz, me sinto realizada!", completa.


Das grandes mulheres que se destacam no setor de mineração, é impossível não mencionar Hilde Merete Aasheim, que assumiu o cargo de CEO global da Hydro em 2019. Ela é a número 13 na lista da revista Fortune, contendo as 50 mulheres mais poderosas que lideram grandes empresas globais. Em seus discursos aparece sempre defendendo a pluralidade e a inserção da mulher no mercado de trabalho. Em entrevista à revista, Aasheim observou que "há muito poucas mulheres líderes nos negócios e em nossa indústria”, e completou: “Se eu posso ajudar a inspirar outras pessoas e, assim, contribuir com a comunidade de negócios em geral e com a indústria que atrai mais mulheres, então parece certo e importante".


A participação da mulher no setor de mineração vem ganhando novas forças, dentre elas, uma iniciativa canadense da qual o Brasil também faz parte, por meio da adesão de 20 companhias do setor: o movimento Mulheres na Mineração/Women in Mining (WIMBRASIL). O objetivo do movimento é ampliar e o fortalecer a participação das mulheres no setor da mineração.


É notório que o papel da mulher no campo profissional teve grandes avanços nas últimas décadas. A socióloga Maria de Fátima Fonseca destaca que esta é uma luta diária, porém, a mulher tem se mostrado resistente e capaz de desenvolver muito mais que atividades domésticas, culturalmente impostas. “A participação feminina está exigindo a todo momento um posicionamento, para resguardar a dignidade e seu protagonismo que é próprio quanto mulher. A sensibilidade, a forma específica de olhar o mundo, de cuidar de si e dos outros, tem que fazer parte da sua valorização, principalmente profissional. São essas especificidades que garantem à mulher a conquista do seu espaço”, finaliza a socióloga.


Fonte: https://www.oliberal.com/

0 comentário