Paralisação da Vale em Mariana gera dúvidas sobre produção e imagem da empresa

A paralisação das atividades da Vale no Complexo de Mariana (MG), apesar de o impacto na produção ser pequeno, de 40,5 mil toneladas de finos de minério de ferro ao dia, pode atrapalhar a retomada da produção da mineradora e a imagem que tenta vender de ter superado as tragédias dos rompimentos das barragens em Mariana (de sua controlada Samarco) e Brumadinho (MG), conforme analistas do mercado.


A empresa anunciou a suspensão das atividades na última sexta (4), após uma notificação da Superintendência Regional do Trabalho (SRT), que não revelou os motivos para pedir a interdição. A paralisação impede a circulação de trens no Ramal Fábrica Nova, da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), e o escoamento da produção da Usina Timbopeba. Além disso, acessos internos da mina Alegria também foram interditados. A Vale disse que está tomando medidas para retomar os trabalhos "o mais breve possível".

O mercado financeiro não reagiu bem à notícia. Além da incerteza sobre o período de paralisação, o acontecimento mostra que a mineradora ainda enfrenta desafios para restabelecer completamente a produção de minério de ferro. Analistas estimam que, desde a tragédia de Brumadinho, em 2019, a Vale tem 100 milhões de toneladas em capacidade anual total ou parcialmente paralisadas por causa de instabilidades de barragens de rejeitos.

A empresa tem afirmado, desde o ano passado, que está pronta para retomar a produção para que, até o fim do ano que vem, a companhia possa produzir 400 milhões de toneladas de minério ao ano. Em 2020, foram 300 milhões de toneladas.

Os planos, entretanto, podem mudar caso a paralisação em Mariana se estenda por mais tempo. "Eu não vejo grandes problemas pensando no curto prazo, mas dependendo do tempo que durar essa redução, pode impactar a produção futura", avaliou o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman.

Em um evento para o mercado, realizado semanas atrás, a Vale disse que sua capacidade produtiva estava em 327 milhões de toneladas ao ano, e a meta é produzir de 315 milhões a 335 milhões de toneladas de minério, em 2021.


Analistas do BTG Pactual, Leonardo Correa e Caio Greiner, afirmaram em relatório que, embora a mineradora esteja apta a cumprir o piso da meta, dificuldades como as de Mariana têm aumentado. "Nossa estimativa de 320 milhões de toneladas (neste ano) parece, de alguma forma, otimista", disseram

A Vale não informou qual porcentagem de sua produção diária vem do Complexo de Mariana, e de que formas tentará reverter a notificação da SRT que paralisou o complexo. A SRT também não deu maiores informações.

Ainda que a paralisação em Mariana se estenda por alguns meses, analistas acreditam que o impacto sobre os resultados financeiros da Vale será pequeno. "Com 33 mil toneladas por dia (produção de Timbopeba), significa que, se a produção ficar parada por três meses, o impacto em volume vai ser de cerca de 1% do guidance de produção para 2021. Não parece significativo", declara o chefe de análise de commodities do Itaú BBA, Daniel Sasson.

O chefe do Departamento de Engenharia de Minas (Demin) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Roberto Galery, lembrou que o minério produzido pela Vale em Minas tem menor concentração de ferro, perto de 50%, o que significa que é menos puro do que o extraído no Pará, por exemplo. Por outro lado, ao reduzir a oferta no mercado internacional, a Vale daria suporte a novas altas do minério de ferro, que no último mês subiu 8% e bateu recordes de cotação.

"Mantemos recomendação de compra (para a ação da Vale) e ressaltamos que o aumento nos preços do minério de ferro deve mais que compensar este pequeno impacto (se houver)", escreveram Correa e Greiner, do BTG.


As informações são do Broadcast/Estadão.

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