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Minas terá condições de recuperar seu protagonismo?



Minas Gerais terá condições de recuperar o seu protagonismo na produção mineral no País? Esta é a pergunta que muitos fazem atualmente, principalmente aqueles que dependem diretamente da mineração. Porém, talvez antes de perguntar por que o estado perdeu seu posto para o Pará, tenha-se que indagar o que levou um setor tão tradicional e decisivo na história econômica e social de Minas Gerais a perder proeminência a partir de 2016, passando a ter sua própria existência questionada pela sociedade, tanto dentro quanto fora do território mineiro. Diante disso, surge uma outra pergunta, feita por gente tanto de dentro quanto de fora do setor: qual será o futuro da mineração em Minas Gerais? Para buscar as respostas é necessário voltar no tempo, ou seja, o que levou Minas Gerais a se tornar o centro da atividade de mineração no País e a ser um estado minerador por excelência? De acordo com a professora Virgínia Ciminelli, da UFMG e membro do Conselho Consultivo de Brasil Mineral, há três momentos marcantes na história da mineração em Minas Gerais. O primeiro é o ciclo do ouro, o segundo o início da produção de minério de ferro e o terceiro o superciclo, que levou a um crescimento exponencial da produção da commodity. O ciclo do ouro teve início no final do Século XVII, quando o metal foi encontrado no Brasil. A extração do metal floresceu durante o século XVIII, tornando o Brasil o maior produtor do metal no mundo. A descoberta do ouro em Minas Gerais teve importantes repercussões, pois causou um grande afluxo de pessoas para a região – fala-se em meio milhão de pessoas – tendo Ouro Preto – que foi uma das grandes aglomerações urbanas no período colonial como ponto focal. “Ouro Preto foi também o berço de diversas expressões artísticas – na pintura, na escultura, na arquitetura e na música – que constituíram um estilo denominado Barroco Mineiro. A magnitude do ciclo do ouro em Minas Gerais só foi igualada depois com a descoberta de ouro na Califórnia, na Austrália e na África do Sul”, diz a professora. O segundo momento, o ciclo do ferro, tem início com a lavra na mina do Cauê, em Itabira, pela então Itabira Iron (sucedida pela Companhia Vale do Rio Doce), no começo da década de 1940. A entrada do Brasil na produção do minério de ferro – a extração, então, era realizada de forma bastante rudimentar, ainda na base da pá e picareta, com o transporte por carros de boi, que depois foram substituídos por caminhões – foi motivada pela demanda americana de aço durante a Segunda Guerra Mundial. A partir da década de 1960, a produção brasileira de minério de ferro, até então concentrada em Itabira, se expande para outras áreas do chamado Quadrilátero Ferrífero, com o ingresso de novas empresas, inclusive internacionais. Nas décadas seguintes a produção foi aumentando em bases regulares, em boa parte para atender à demanda da siderurgia nacional, mas também para exportação. Quando chega no início dos anos 2000, iniciou-se aquilo que se convencionou chamar de Superciclo, quando os preços do minério de ferro, motivados pelo crescimento acelerado da demanda na China, foram catapultados de menos de 30 dólares a tonelada (até 2003) para quase 140 dólares/t (em 2010). E continuaram subindo nos anos seguintes, até 2015. Como consequência, a produção em Minas Gerais quadruplicou no período. “Esse crescimento muito grande trouxe o aumento da escala de produção e gerou pressões nas unidades industriais existentes, incluindo as barragens de contenção de rejeitos”, observa Virgínia Ciminelli, acrescentando que há duas características importantes da mineração no estado de Minas Gerais: a primeira delas é a proximidade entre as minas e as regiões urbanas (algumas minas ficam praticamente dentro da região metropolitana de Belo Horizonte). Isto, na opinião da professora, é um ponto de desgaste na relação das empresas com as comunidades. A segunda característica é que há um grande número de minas em uma mesma região, fazendo com que as interferências não possam mais ser tratadas como pontuais.


Os desastres

O fim do Superciclo coincidiu com o desastre em Mariana, no dia 5 de novembro de 2015, e mais à frente com o de Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019. Ambos causaram impactos sem precedentes. O primeiro desastre, segundo Virgínia Ciminelli, já mostrava a vulnerabilidade das regiões de mineração e dos sistemas de controle, o que inclusive levou a uma revisão mundial dos procedimentos. Mesmo assim ocorreu o segundo desastre. Ambos foram grandes tragédias, com perda de vidas, impactos ambientais, econômicos e sociais incalculáveis, mas o impacto de Brumadinho foi infinitamente maior, principalmente pelo lado humano. Estes dois desastres marcaram um ponto de inflexão para o setor mineral em nível mundial e têm forçado mudanças concretas nas práticas de gestão de rejeitos. “Mas foram muito dramáticos para todas as famílias atingidas e também para todas as pessoas que atuam no setor”, lamenta a professora. No entanto, ela assinala que a riqueza mineral do estado vai bem além do ferro e do ouro. “Minas Gerais é o maior produtor mundial de nióbio, com 75% da produção desse metal e reservas na região de Araxá suficientes para atender ao mercado por cerca de 400 anos. É também o maior produtor mundial de concentrado de tântalo, único produtor nacional de zinco, maior produtor nacional de ferro, de ouro, lítio, fosfato, grafite, rochas ornamentais, calcário, gemas e outros. Produz ainda minerais para a agricultura, para a construção civil, metais de base e também os chamados metais do futuro”, assinala. Para Virgínia Ciminelli, essa importância mundial da riqueza mineral do estado certamente justifica uma reflexão e, neste sentido, ela destaca dois pontos: primeiro, que “os minerais e metais fazem parte do nosso cotidiano, desde os utensílios mais simples até os mais sofisticados. A disponibilidade desses minerais e metais, numa sociedade tecnológica, é considerada estratégica. E por isso há programas recentes na Comunidade Europeia e nos Estados Unidos, que visam garantir o suprimento dessas matérias primas”. O segundo ponto é que, “a despeito da importância desses insumos e da rigidez locacional do depósito, ou seja, uma mina não pode ser transportada para outro lugar, a sociedade deixa cada vez mais claro que não quer uma extração a qualquer custo nem em qualquer lugar. Assim, valores devem ser considerados na discussão sobre os empreendimentos”.


Processos mais complexos

Outros vetores das transformações por que passam o setor de mineração em Minas Gerais são a maior complexidade dos minérios e os baixos teores das reservas remanescentes, que além de exigir processos mais complexos para seu aproveitamento, com custos mais elevados, requerem mais energia e disponibilidade de água. Estes atualmente são dois itens críticos para a mineração, por seu uso intensivo. “Embora, se olharmos os dados da Agência Nacional de Água (ANA), o consumo global da mineração é pequeno, ou seja, menos de 1%, enquanto na agricultura e pecuária é cerca de 80%”, aponta a professora Virgínia. Só que localmente esse percentual muda, a competição por esses recursos pode ser acirrada e a interferência do empreendimento no uso dos recursos pode ser significativa. Os mais baixos teores das jazidas também têm contribuído para um aumento expressivo na geração de rejeitos, o que é óbvio, porque se tem que processar um volume cada vez maior de minério para obter a mesma quantidade de concentrado. E este talvez seja o maior desafio para a indústria de extração do minério de ferro em Minas Gerais na atualidade. Com as restrições sobre barragens, onde colocar tanto rejeito? Isto tem exigido elevados investimentos em projetos de filtragem de resíduos e empilhamento a seco e, também, tem contribuído para o aumento dos custos de produção. Além disso, as empresas estão tendo que investir fortemente na descaracterização das barragens de rejeito mesmo aquelas que são por alteamento a jusante já que a insegurança gerada na população, principalmente após o acidente de Brumadinho, tem sido motivo frequente de conflitos entre as empresas e as comunidades que vivem no entorno das barragens. E isto não apenas na mineração de ferro. Um outro item que que exigido mudanças no setor, na opinião de Virgínia Ciminelli, são as tecnologias digitais, “que estão causando uma revolução não só na indústria mineral, mas em todo o setor industrial, abrindo uma gama de possibilidades com análise em tempo real, big data, robótica, inteligência artificial, internet das coisas. Hoje temos operações cada vez mais autônomas (como caminhões na mina de Brucutu, da Vale, em Minas Gerais), centros de inteligência artificial. O setor passa por um processo de digitalização dos dados como um passo para o uso mais amplo de inteligência artificial, internet das coisas, robótica e isso traz uma maior segurança no trabalho nas operações, além de reduzir custos e melhorar a gestão”. A professora acrescenta que alguns acreditam em mudanças mais drásticas nos processos de extração, com maior uso da lavra subterrânea utilizando drones e também veículos autônomos, lembrando que a lavra subterrânea tem a vantagem de causar menor impacto na paisagem e servir depois para receber rejeitos produzidos durante o processo. “Há também a chamada extração in situ, processo em que se injeta os reagentes no corpo mineral. Estes reagentes dissolvem o metal de interesse e a solução é transportada até à superfície, onde o metal é recuperado. A extração in situ não pode ser usada para qualquer metal, mas no caso do urânio já é responsável por mais de 50% da produção”. Outra tendência apontada por Ciminelli é a da busca do resíduo zero, através do seu aproveitamento para outros fins. Ela cita o exemplo, em Minas Gerais, de uma mina da Nexa Resources, em Morro Agudo, que produz concentrado de zinco para alimentar uma usina metalúrgica que produz zinco metálico. “A partir de 2010, foram feitas mudanças no processo de beneficiamento, de tal forma que se chegou a três produtos: o concentrado de zinco, o concentrado de chumbo, que é exportado, e a dolomita, que é utilizada como corretivo agrícola e que representa o maior volume. É importante salientar que, como aconteceu nessa unidade – e em outras empresas – processos ambientalmente mais sustentáveis geram novas receitas. No caso da Nexa, esses coprodutos são responsáveis por 30% da receita total dessa operação”. Porém, ela ressalva que a técnica do rejeito zero não pode ser aplicada a qualquer mina, o que torna cada vez mais importante a garantia da maior segurança das barragens de rejeito. “Muitos falam da Vale, no Pará, no projeto S11D, uma mina sem barragens de rejeito, com elevado grau de automação e que resulta em 93% de redução no consumo de água e 77% no consumo de energia. Mas este é um minério único, muito rico. Não é o que acontece com os minérios de Minas Gerais. Para os minérios mais pobres, outras tecnologias têm que ser aplicadas, como é o caso da disposição a seco utilizando filtros para a secagem e recuperação magnética de finos, aplicada pela primeira vez no mundo em uma mina em Minas Gerais”. 


Fonte: Brasil Mineral

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